Squat


por Daniel Damasceno

Há uns dias atrás, abri meu Messenger e tinha uma mensagem do Rafael Mendonça me pedindo pra contar a história do Squat para um novo site que ele estava a produzir.

Perguntei-lhe formato de texto, número de toques, laudas etc pra dar um ar mais “profi”, de jornalista, na conversa e ele respondeu: sem regras! Ora, nada mais adequado ao tema.

Em primeiro lugar, só consigo contar uma breve história do Squat e a minha história do Squat. Todo mundo que frequentou o Squat tem a sua história do Squat. Em algum ponto (ou vários) nossas histórias do Squat vão se tocar. E será uma história daquilo que eu me lembrar, porque toda vez que me encontro com o tema, me lembro de algo a mais, de algo a menos, de algo que não sei nem se é verdade mais… Logo, a história do Squat é meio fantasiosa, meio realismo fantástico, porque aquilo foi muito, muito intenso. Muito mesmo. Resolvi então contar a história histórica do Squat, e não os causos do Squat.

Tudo começou no século passado, no verão de 1992, quando o Cristiano Seixas e o primo dele, Alexandre, o Gui Guimarães e eu fomos para uma odisséia em São Paulo. Quando conversávamos onde passar as férias de fim de ano sem dinheiro, ocorreu em conversas que poderíamos desbravar o que seria a misteriosa Estrada Real (hoje badalada mas, então, um mito), se poderíamos achar fragmentos desta estrada etc… Isso nos levara a Paraty e de Paraty nos levara à Estação Ecológica da Juréia Itatins, quase na divisa com o Paraná. E, onde hoje encontra-se um badalado litoral cheio de pousadas, era então uma espécie de Vale Perdido dos dinossauros, um mundo inexplorado, onde o único almoço era servido por uma descendente de bandeirante, tataraneta do Anhanguera ou coisa que o valha.
Fato é que, pobres, sujos e fedidos, subimos o litoral até Maresias, que também era uma vila sem grandes “infras” e bem rústica. Em Maresias, frequentamos por duas noites o “Bar do Badeco”, um refúgio de surfistas onde tinha boa música, boa cerveja e muitas pessoas bonitas e alto-astral. E ficamos assim, boquiabertos com a natureza do litoral paulista até que fomos para Sampa (onde fomos confundidos com músicos que iriam tocar no Hollywood Rock – naquele ano, cigarro ainda patrocinava eventos). Em São Paulo, nos perdemos entre um lugar chamado “Hellish” e um outro chamado “Espaço Retrô”. O Espaço Retrô traduziu o Bar do Badeco e o trouxe para muito mais perto da nossa realidade urbana e nada praiana. Era possível ter um lugar bom para sair à noite, ouvir música boa, ver gente interessante e respirar produção cultural.

Voltamos para BH com tudo aquilo na bagagem e um pedaço de bacon podre que ficou esquecido no meio das roupas sujas. De volta à faculdade, Cristiano e eu decidimos que iríamos abrir um lugar que desse conta do Espaço Retrô (muita produção cultural), do Bar do Badeco (cheio de gente bonita) e do Hellish (onde podia-se tocar Ministry que todo mundo dançava). Em busca de recursos, nos associamos a dois outros amigos do Cristiano, Dalmo e Jorge, e juntamos a grana (U$500,00 cada um). O tio do Cristiano tinha um ferro-velho e a gente então mobiliou o Squat com ferro-velho. Quem achou este nome foram o Jorge e o Dalmo que queriam que aquilo tivesse uma cara de squat europeu etc… Tinha uma pá de flyer dos shows do Olho Seco, Inocentes, Ratos de Porão e do Cólera na Europa e a gente pegou o clima da coisa rapidinho. A idéia era: não toca cover, só toca banda com trabalho próprio e uma vez por mês a gente levaria uma banda de fora de Minas Gerais pra tocar no Squat. Para que isso tudo ocorresse a gente precisaria de um local adequado. Foi quando apareceu o querido Alexander Magoo (Chemako) dizendo que também queria alugar um local para fazer seu estúdio onde bandas poderiam ensaiar (inclusive a dele) mas ele não queria alugar uma casa inteira porque ele precisava só de um ou dois quartos. Pimba! O Squat nascia deste DNA. Promover e produzir cultura, arte, música. Alugamos uma casa de dois andares na Rua Fernandes Tourinho e pintamos, reformamos, alteramos, colamos chapas de raio-X nas janelas, fizemos isso e aquilo.

Entre freezers velhos que davam choque e algumas pick-ups antigas pra rolar um vinil (ou dois) surgia o Squat: pista de dança, palquinho no chão, DJ, estúdio de dança, sofá (se a gente fosse playboy iam chamar aquilo de lounge). A noite da inauguração foi épica. O Squat também tinha um fanzine, que era a forma de divulgar a agenda, as bandas e outros artistas (sim, a gente teve exposição de fotografias, pintura, desenho, quadrinhos etc) – quem fazia os fanzines era a Ana Paula Orlandi (obrigado). A gente tinha muitos contatos na imprensa (mais do que a gente sabia que tinha) e a noite inaugural foi com Pato Fu, com a TV Bandeirantes e a MTV cobrindo e entrevistando, a maior loucura! Deu tudo certo e eu acabei dormindo lá mesmo, porque não tínhamos sistema de segurança etc… Bom, eu dormi lá por dois anos. Foi minha casa. E a casa de alguns outros squatters que foram e vieram durante estes dois anos (que mais pareceriam 25). Dalmo e Jorge, (obrigado) saíram da sociedade no primeiro mês e Cristiano e eu tocamos o barco dali pra frente. E como tocamos! Foram mais de 250 shows, festivais punk-rock, umas 20 bandas de outros estados, uma visita do Nick Cave e muita, muita música. A vida intensa de squatter é para poucos, e dormir às 5 da manhã e acordar às 7 para ir à faculdade, depois voltar meio-dia e começar a limpar tudo, produzir panfletos, telefonar para bandas, marcar agenda, distribuir isso e aquilo, comprar bebida, enviar press releases, alugar equipamentos etc… ufa! Era uma luta danada! E que luta boa. Tudo na maior tranquilidade de umas 10 bandas por dia subindo e descendo as escadas daquela casinha art-décor surrada, onde o maior público fora 207 pessoas (chamem o síndico!), onde até as paredes suavam de tanto calor. Era uma coisa incrível. Ao final de 2003 ganhamos as páginas dos jornais como “O melhor acontecimento cultural de Belo Horizonte” e a cena mineira só falava daquele lugar onde não podia tocar cover – e cover, meu amigo, dava muito dinheiro!

Campainha toca, 3 moleques de skate na mão, fitinha K7 estendida “pode tocar aqui?” e eu chamava os moleques pra dentro, abria minha agendona e começava a ver as datas. Sem nem escutar a banda eu marcava os shows – pode! Vocês tocam dia tal, com esta e aquela bandas! Ok? WOW! Os olhos dos moleques brilhavam! Era o meu grande prêmio. Eu sabia que tava fazendo alguma coisa certa naquele momento mágico do _“podemos tocar aqui? Nossa música? A gente pode tocar Pearl Jam…” _ “Não! Aqui só toca Pearl Jam se o Pearl Jam vier tocar aqui! “ Ahaha! Esta era minha grande vitória, meu triunfo contra o sistemão bloqueado e falido.

Bom, mas era o Squat um squat? Tecnicamente, não, porque a gente tinha um contrato de aluguel. Mas, na prática era, porque a gente sempre atrasava o aluguel um mês ou dois, a gente não poderia morar lá, mas morava lá assim mesmo – e muita gente morou lá, em diferentes ocasiões, por diferentes razões. Mas era a casa de todo mundo e ficar no Squat era uma possibilidade. Portanto, o Squat era um squat sim.

As histórias podem ser muitas, e as sextas-feiras com o DJ Geraldo de Paula Jr (obrigado) e as quintas feiras com Alice em Chamas (obrigado Dani & Rafa) e o Jeff Santos e o Roger Moore (obrigado e obrigado) que faziam sim, a galera dançar muito naquela pistinha nossa, era uma sensação. Nossos amigos e irmãos e irmãs eram nossos garçons, garçonetes e porteiros.

O Cristiano saiu, o Rodrigo Moura (obrigado) virou meu sócio e nós dois tocamos o timão do barco até colidirmos com as rochas do Plano Real, a Unidade Real de Valor e o fatídico dia da superinflação, quando uma cerveja de 600ml que custava CR$2.750,00 (cruzeiros reais), passou a custar R$2.75,00 e não R$1,00 como deveria ter sido (ninguém estava muito a fim de fazer a conversão correta e simplesmente cortaram os zeros, de novo). A inflação de 1000% em um dia. E isso nos inviabilizou. Nosso aluguel subiu demais e só não fomos despejados por ajuda externa (obrigado).

Morar no Squat foi uma experiência única, soldadora de caráter e de muita garra. Apesar dos favores da juventude, a precariedade era doída. Um regime que seria espartano, se não fosse tão livre, leve e solto.

Bandas como V.E., Os Contras, Chemako, Insolentes, Transtorno, Stonehenge, Mikey Junkies, Okotô, Bel, Tubarões Voadores e um monte de gente que hoje faz sucesso por aí, passaram pelo palquinho do Squat, e beberam e vomitaram no Squat. O Squat não era solitário, tinha a Broadway (para onde fugíamos com o Squat aberto e funcionando, só para dançar ao som do Roger Moore), tinha outras coisas indo bem. Mas o Squat é sim, costela de Adão de muita coisa bacana que surgiu depois e surfou aquelas ondas. Mas, verdade seja dita, a lacuna deixada pelo Squat jamais foi preenchida. E aquela casinha onde bandas só podiam tocar seu trabalho próprio e onde as pessoas podiam ser o que elas quisessem, este lugar, não existe mais. Se foi num portal mágico no tempo, entre 1993 e 1994, por onde passaram fadas, elfos, anjos e demônios. Foram dois séculos muito divertidos. Obrigado