Retomada ou estagnação?


Por Fabrício Augusto de Oliveira

 
Terminal de Contêineres de Paranaguá (TCP), Porto de Paranaguá Foto: Arquivo APPA/Fotos Públicas
 

 

A divulgação pelo IBGE dos resultados do PIB de 2016, confirmando que houve uma contração da renda nacional de 3,6%, praticamente reeditando a queda de 3,8% registrada em 2015, revelou que a economia brasileira conseguiu produzir uma das piores recessões de sua história entre o segundo trimestre de 2014 e 2016, com queda acumulada de 9,1% na renda per capita dos brasileiros, só superada pela recessão do início da década de 1980, quando este tombo chegou a 12,6%.

Nunca na história do Brasil registrou-se uma recessão tão prolongada, acompanhada de uma taxa de desemprego formal de 12% em dezembro, ou mais de 20% se se incluem, neste contingente de desocupados os que estão vivendo de bicos e os que desistiram, por desalento, de batalhar por uma nova vaga de trabalho. Apesar disso, o governo e os representantes do mercado acreditam que o pior já tenha passado e que o país já reiniciou uma nova caminhada rumo à recuperação e ao crescimento econômico, deixando para trás o inferno da recessão produzida por políticas inconsequentes e irresponsáveis do governo anterior.

Alguns números da economia deste início de 2017 parecem confirmar o otimismo que o governo tem procurado transmitir para a população sobre o início desta nova era como obra exclusivamente da nova política econômica implementada pelos “gênios” da economia: a indústria voltou a emitir alguns (ainda fracos) sinais de que continua viva, enquanto o mês de fevereiro registrou contratação líquida de 34 mil novos empregos formais e a confiança dos empresários, bem como dos consumidores, têm conhecido algum nível, ainda que modesto, de elevação.

Há mais fatores que são apontados para uma possível melhoria deste quadro: a inflação se encontra em queda livre, tendo se aproximado, nos últimos doze meses, do centro da meta, pondo cabo a um dos mecanismos que mais prejudicam a vida e a renda dos que recebem salários; com o objetivo de estimular o consumo (de forma contida), o governo liberou para saques por seus titulares as contas inativas do FGTS, esperando injetar R$ 30 bilhões na economia; o leilão de privatização (chamada de concessão) dos aeroportos atraiu investidores, embora não na dimensão pretendida, gerando receitas adicionais para o governo de US$ 3,7 bilhões, com ágio de 23%, tomado como indício inequívoco de credibilidade da política econômica; o front externo continua favorável, com o déficit em conta corrente reduzido, nos últimos doze meses, a 1,3% do PIB em janeiro; a economia internacional, especialmente a economia norte-americana, projeta melhor desempenho para 2017, apesar das dúvidas reinantes sobre a economia chinesa.

Estranhamente, no entanto, o Ministério da Fazenda reduziu, no dia 21 de março, a expectativa de crescimento econômico para este ano de 1% para 0,5%, aproximando-se das projeções do mercado, caminhando em direção contrária ao que seria esperado diante deste cenário mais animador que tem sido desenhado pelas autoridades governamentais. Disso se pode inferir que o governo ou está enganando a população ou está perdendo a convicção de que a atual política econômica poderá gerar os resultados esperados.

A verdade é que os espasmos de vida que se tem registrado na atividade econômica são inconsistentes e podem ter vida breve porque resultantes muito ainda da melhoria das expectativas que ocorreu com a troca de governo e dependente, para ter continuidade, do avanço de algumas reformas anunciadas, ainda que limitadas para este propósito. Os efeitos do primeiro caminham para o fim e, pelo andar da carruagem, dificilmente as reformas propostas, mesmo que insuficientes, conseguirão prosperar no atual governo a ponto de manter acesa essa chama.

O fato, tirante a queda da inflação pela asfixia a que foi submetida a atividade econômica, e as pequenas doses de remédios ministradas para dar alguma força ao consumo, mas que devem ser usadas para saldar dívidas, muito pouco se fez, até o momento, para reverter a queda espetacular de 4,2% do consumo e de 10% dos investimentos registrados em 2016, os principais motores do crescimento. Como estes demandam mais ações que a mera manifestação de otimismo demonstrada pelo governo para reagir, não será nenhuma surpresa que o país continue, ainda por mais algum tempo, se não no inferno da recessão, no mínimo no purgatório da estagnação.

 
Economia

Fabrício Augusto de Oliveira
 

Doutor em Economia pela Unicamp, membro da Plataforma de Política Social e autor, entre outros, do livro ‘Política Econômica, estagnação e crise mundial: Brasil 1980-2010’