O humor não combina com a nossa época - os 50 anos de A Brincadeira de Milan Kundera


Por André Nigri

“A tela que separa o homem da realidade pode ser a ingenuidade dos ideais juvenis…A realidade pode ser a guerra ou a felicidade conjugal ou a morte” Natalia Ginzburg 

Para Ludvik Jahn, herói de A Brincadeira, essa tela é o ódio e o desejo de se vingar, e a realidade é a insignificância e o naufrágio no mar indiferente da história.

Há 50 anos um intelecutal nascido em Brno, na República Tcheca, Milan Kundera, de 38 anos, lançava seu primeiro romance, A Brincadeira. No ano seguinte, em meio à tempestade idílica que culminou na Primavera de Praga e teve seu epílogo na invasão dos tanques russos, o livro vendeu mais de cem mil exemplares. Menos de dois anos depois essa mesma obra foi proibida, seu autor perdeu todos os direitos e entrou na lista negra do regime. Em 1975, ele e sua mulher colocaram algumas malas no carro e deixaram o país rumo ao exílio na França. A história esmagou o homem que um dia iludira-se ao imaginar que a domava.A Brincadeira foi saudado pelos leitores tchecos como um pungente manifesto antistalinista e calçou como uma luva nas mãos erguidas pelas ruas de Praga festejando a terceira via liderada por Dubcek para a Tchecoslováquia. Mas o livro  vai muito além desse propósito político.

Estamos diante de Ludvik Jahn quando ele acaba de chegar depois de muitos anos à sua cidade natal onde não lhe restou um único parente. Ele se hospeda em um hotel, não gosta da aparência modesta do quarto e resolve procurar um amigo de infância. Esse velho amigo, a quem Jahn prestou favores no passado, empresta-lhe a chave de seu pequeno e aconchegante apartamento. O motivo? Jahn marcou um encontro, um encontro há muito esperado com uma mulher que, assim como ele, vive em Praga.

Num longo flashback, vamos descobrindo a razão desse calculado encontro.

Jahn era um destacado membro do partido comunista na universidade, um ardoroso defensor do socialismo à soviética implantado depois do golpe de fevereiro de 1948. Ele é estimado pelos colegas, admirado pelos estudantes, e tem um espírito brincalhão. Sua desgraça começa quando ele se apaixona por uma beldade da universidade, cobiçada, mas dotada de pouca perspicácia e nenhum senso de humor. Ela não está sozinha, como nos lembra o narrador: o humor não combinava com a época -, e, acrescento, tampouco combina com a nossa

Os dois iniciam um namoro pouco antes do fim do ano letivo. A proximidade das férias prenuncia a consumação daqueles corpos febris que não foram além das primícias eróticas. Mas a garota recebe uma ordem para ingressar numa colônia agrícola a fim de aprimorar sua fé no partido. Em todos os regimes comunistas, havia essas colônias de reeducação no interior em antigas propriedades expropriadas. Jahn explode de impaciência e passa a enviar cartas apaixonadas revelando a intimidade de seus ardores. Em uma dessas cartas, ele escreve duas frases irônicas sobre o regime. Jahn não percebeu, e quando o faz já é tarde, que a ironia é um desvio burguês imperdoável. A carta chega às mãos das autoridades – essas autoridades eram seus colegas, estudantes como eles, seus amigos – e elas o expulsam da faculdade e cassam seu cargo no partido. Ele é condenado a integrar as fileiras dos “negros”, designação pela qual eram chamados os expurgados por desvio moral cuja pena era o serviço militar sem uso de armas e o trabalho compulsório nas minas. Antevendo sua expulsão, Jahn procurara Zamenek, um amigo influente junto à direção do partido para livrá-lo da enrascada provocada por uma simples brincadeira. Esse amigo, no entanto não tem quaisquers escrúpulos de consciência em apontá-lo culpado e o condenar.

Incapaz de esquecer essa traição, Jahn encontra, muitos anos depois, uma oportunidade para materializá-la.

Vários personagens cruzam o caminho do conscrito ao longo da história; Kundera os faz aparecer dircursando na primeira pessoa.

A Brincadeira é um belo romance, prejudicado apenas por alguns trechos de reflexões sentimentais nonsense, uma maçante digressão bíblica e o desenvolvimento implausível da personagem Lucie. A sétima e última parte é plenamente realizada. Kundera pula de um foco narrativo para o outro com extrema habilidade e o resultado é a desoladora constatação da insignificância de nossos atos. É também um romance que examina a juventude; uma das frases mais lembradas da narrativa é: “Uma onda de raiva contra mim mesmo me inundou, raiva contra minha idade de então, contra a estúpida idade lírica.”

O grande tema

Milan Kundera tem uma conhecida ideia de romance: “Uma grande forma de prosa em que o autor, através dos egos experimentais (personagens), examina até o fim alguns grandes temas da existência.” Entre os temas elegidos por ele ao longo de meio século de atividade como romancista e ensaísta – suas análises sobre Kafka e Broch já fazem parte da fortuna crítica daqueles autores -, uma se sobrepõe às demais como se as dominasse à semelhança de um grande planeta com satélites girando em torno de sua órbita. Esse tema é a insignificância. Ele está presente em A Vida Está em Outro Lugar, A Valsa dos Adeuses, em O Livro do Riso e do Esquecimento, A Insustentável Leveza do Ser, nas narrativas mais curtas das últimas décadas, em A Lentidão, A Identidade etc. E culmina na sua novela mais recente, de 2013, A Festa da Insignificância: “A insignificância, meu amigo”, diz um personagem no último capítulo, “é a essência da existência. Ela está conosco em toda parte e sempre”.

Kundera, como se pode imaginar a essa altura, não é, no entanto, apenas mais uma voz na jeremiada que grita contra a invasão bárbara que assaltou nossa civilização há pelo menos um século, desde que dois tiros foram disparados em Sarajevo no dia 28 de junho de 1914. Prova disso é sua absoluta fidelidade ao gênero romanesco. Quando estreou no final daquela década convulsionada e apocalíptica, o romance já tinha recebido sua sentença de morte pelos arautos do nouveau roman que da França – um dos berços do romance! – anunciavam com selvagem satisfação o fim do autor e o funeral de suas obras. Ao contrário dessa litania, Kundera sempre achou inesgotáveis as possiblidades dessa arte, que, para ele, está longe de dar sinais de falência. No mesmo 1967, o colombiano Gabriel García Márquez publicou Cem Anos de Solidão, silenciando o dobre de finados dos coveiros franceses. Se algo foi sepultado, foram as frágeis – com as exceções de praxe – peças por eles escritas.

Em um ensaio de 1986, Milan Kundera revelou ao mundo sua fé: “Se o futuro não representa um valor a meus olhos, a que estou ligado: a Deus? à pátria? ao povo? ao indivíduo? Minha resposta é tão ridícula quanto sincera: não estou ligado a nada, salvo a herança depreciada de Cervantes.”

Literatura

André Nigri

Jornalista, crítico literário e leitor compulsivo