Ivan Búnin em busca do tempo perdido


Por André Nigri

Em outubro de 1917, quando os bolcheviques empurraram o governo de coalizão para fora do Palácio de Inverno em Petersburgo, Ivan Alekséievitch Búnin completou 47 anos. Seus escritos de crítica e denúncia das condições sociais da população camponesa granjearam-lhe prestígio entre os próceres do novo regime, mas foi com o romance A Aldeia, publicado dez anos antes, que Búnin tornou-se nacionalmente conhecido e aplaudido, a ponto de Máximo Górki, futuro modelo da literatura oficial soviética, considerá-lo o maior escritor vivo da Rússia.

Pouco mais de dois anos depois, contudo, Ivan e Vera Miromtseva, sua companheira, embarcaram em uma navio de bandeira francesa no porto de Odessa rumo à Constantinopla, dando início a um longo exílio cujo termo ocorreu em 8 de novembro de 1953 com a morte do escritor em Paris – duas décadas antes ele tornara-se o primeiro autor de língua russa laureado com o Prêmio Nobel de Literatura.

Durante todo o período de pouco mais de três decênios de desterro, Ivan foi um ativo colaborador de publicações de emigrados russos na Europa além de ter liderado campanhas para recolher fundos de ajuda a refugiados. Em suas memórias, Vladimir Nabokov anota alguns encontros com ele em Paris de maneira pouco lisonjeira. Recém-contemplado e abonado com o Nobel, ele convidou Nabokov para jantar em um restaurante caro e elegante da cidade. “Infelizmente, eu tinha uma mórbida aversão por restaurantes e cafés, principalmente de Paris”, escreveu em Fala, Memória. No mesmo encontro, o futuro autor de Lolita disse tê-lo encontrado “profundamente perturbado pelo problema pessoal do envelhecimento”.

Distante de sua pátria, a prosa de Ivan Búnin parece de fato declinar para um estado de leve depressão e suas obras desse período são marcadas por um atrofiante lirismo com toques e desenlaces mórbidos. Tais elementos podem ser encontrados na novela O Amor de Mítia, publicada pela primeira vez em dois volumes na revista Anais Contemporâneos em 1925, periódico de emigrados russos na França, e agora reeditada pela Editora 34 com tradução do mestre Boris Schnaiderman – um de seus últimos trabalhos. Boris morreu um dia depois de fazer 99 anos, em maio de 2016.

O pesadelo da história

Toda a ação de O Amor de Mítia passa-se entre o fim do inverno e o verão e abarca dois cenários: Moscou e uma decadente propriedade rural senhorial a algumas centenas de quilômetros ao sul, provavelmente uma referência aos domínios de Vorônej, cidade natal do autor. Não há anotação de data alguma, apenas acompanhamos as mudanças do clima, as cores do céu, a floração dos campos e o canto dos pássaros. O personagem que dá título à novela está no limiar da idade adulta e vive sua primeira grande paixão pela jovem Kátia, estudante de arte dramática de Moscou que vive com a mãe, uma quarentona separada de cabelo pintado da cor de framboesa e fumante inveterada e de atitudes liberais.

Acompanhamos a breve relação entre os dois, mas sobretudo a descida ao inferno do protagonista.

Ivan Búnin tinha como mentores Tolstói e Tchékhov e não é difícil reconhecer os procedimentos tomados de empréstimo deles à sua prosa: a invasão e o recuo nas emoções de Mítia e o angustiante reflexo delas na natureza que o cerca, por exemplo. Esse antropomorfismo foi provavelmente aprendido com Tolstói: aleias de tílias, a nudez das centenárias bétulas, a floração dos lilases, todo o reino vegetal é repassado pelos sentimentos de Mítia, que ora parecem sorrir com o despontar das flores, ora entristecer com os sulcos profundos deixados pelas chuvas sobre os riachos.

Mítia e Kátia começam a namorar no inverno em Moscou e a jovem logo torna-se alvo de um atroz ciúme do namorado. Como precedentes literários de Mítia há, é claro, Otelo, mas principalmente o narrador uxoricida de A Sonata a Kreutzer, uma das novelas da maturidade de Tolstói.

No início da primavera, Mítia resolve deixar Moscou e visitar a mãe no interior. Ele e Kátia combinam encontrar-se em junho em um balneário da Crimeia. É no campo, sozinho – a mãe viúva anda sempre ocupada com a administração da propriedade e os irmãos mais novos ainda não chegaram para as férias – que Mítia revolve sua paixão: “Nessa época maravilhosa, Mítia observava, alegre e concentrado, todas essas modificações primaveris, que ocorriam à sua volta. Todavia, Kátia não só não se retirava, não se perdia em meio a elas, mas, pelo contrário, participava de todas aquelas modificações, acrescentando a tudo a sua pessoa, a sua beleza, que desabrochava com o desabrochar da primavera, com aquele jardim que branquejava cada vez mais magnífico, com aquele céu que se azulava, cada vez mais escuro.”

Como se vê, o idílio no cenário de sua infância é permanentemente ameaçado e invadido pelo amor deixado na cidade, e Mítia, depois de escrever inúmeras cartas para Kátia, aguarda com ardente impaciência uma resposta, que só chega por meio de duas linhas escritas com uma caligrafia de mau gosto, mas suficientes para renovar suas esperanças. Kátia, segundo confessa seu amante, é um tanto vulgar: quando sobe ao palco para o exame final do curso de teatro, ela recita o texto de forma artificiosa e constrangedora; nas últimas semanas do inverno sua principal ocupação é correr as lojas e provar roupas e sua caligrafia tem “uma pobre letra”. Nisso ela lembra outra jovem, alvo de um dos ciúmes mais doentios da história literária, Odette de Crécy, a coquete amante de Charles Swann da saga de Proust.

A breve carta da amada ilustra a técnica e a beleza das longas orações de Búnin. Ao descrever como o envelope foi aberto por seu jovem herói, ele imprime um ritmo preciso desencadeando humores que se sucedem na alma do personagem:

“Ergueu os olhos: alegre e triunfal, o céu brilhava sobre o jardim: o jardim luzia em volta, com a sua brancura de neve: um rouxinol, que já sentia o friozinho do anoitecer, gorjeava com força, com toda a doçura da embriaguez dos rouxinóis, entre o verde fresco das moitas afastadas – e o sangue refluiu-lhe do rosto, sentiu um formigamento nos cabelos…”

Esse estado de júbilo dura pouco. Uma carta não é o bastante, e a demora aumenta a angústia da espera. Então ele para de acompanhar a natureza em torno, “todas as transformações que, à sua volta, realizava o verão já próximo”. Mítia até via e sentia tais transformações, “mas elas tinham perdido para ele todo o seu valor independente, e não lhe causavam senão um prazer doloroso: quanto mais belo era tudo, mais ele sofria. Kátia já se tornara uma verdadeira alucinação; ela estava agora em tudo e atrás de tudo, e, visto que todo dia confirmava de maneira mais terrível que ela não existia mais para ele (…)”, e assim o período narrativo se prolonga pela página.

Italo Calvino. Depois de ler um trecho de Guerra e Paz para um auditório lotado, ele diz: “Indivíduo, natureza, história: na relação entre esses três elementos consiste aquilo a que podemos chamar de épica moderna. O grande romance do século 19 dá início a esse discurso, e a narrativa do século 20, em suas formas mais convulsas e abruptas, lhe dá continuidade.”

Mas como isso se realiza nesta pequena história de Ivan Búnin, supondo, como eu suponho, que se trata de um grande romance? Onde está a história? O quadro social é tão prosaico! Tudo o que vemos são camponesas lavrando a terra, funcionários subalternos trabalhando, artistas de teatro vagando por Moscou, uma ou outra cena de ópera, tudo em pinceladas rápidas, aparentemente ou descontextualizadas.

Lembrem-se: Búnin amava a Rússia e teve de deixá-la para continuar sua arte. Nenhum de seus escritos podia circular dentro da União Soviética. É verdade que ele não estava sozinho. “Com muito poucas exceções, todas as forças criativas de mente liberal – poetas, romancistas, críticos, historiadores, filósofos etc. – haviam deixado a Rússia de Lénin e Stálin” (Nabokov). Havia, é verdade, um grande número de leitores entre os emigrados para os livros publicados em Paris e em Berlim, mas a quantidade dos livros ultrapassava a de leitores. Como lembra Nabokov, as obras “adquiriam um certo ar de frágil irrealidade.

Penso que uma leitura apressada da novela de Ivan Búnin pode ter esse efeito de irreal nos leitores de hoje, mas trata-se de uma ação pensada, calculada, que não podia se dar de outra forma. Pois para Búnin a história tinha terminado ou no máximo se transformado em um pesadelo. Sua Rússia não mais existia no espaço e foi preciso que ele a evocasse, evocasse a paisagem da sua infância, dos primeiros e frustrados amores, na memória, na imaginação, que é como se realiza a verdadeira arte. São os mesmos tempo e cenário de seus adorados mestres, Tolstói e Tchékhov: o século 19; as estepes; as estradas esburacadas por onde rolam as telegas; os mujiques; a sopa de repolho e o kvás. Se fosse, no entanto, apenas uma evocação idílica, O Amor de Mítia figuraria hoje num empoeirado álbum de fotografia do império czarista esquecido em algum canto. Mas sua essência, o que ele diz em silêncio, o ritmo do seu andamento e o abismo no qual ele se precipita transformam-no em um maravilhoso livro.

Coetzee. Ao lado de A Sonata a Kreutzer e No Caminho de Swann, o escritor sul-africano coloca Senilidade de Svevo como um dos grandes romances do ciúme sexual masculino. É verdade. Eu acrescentaria O Amor de Mítia no mesmo nicho dessa estante.

O Amor de Mítia, Ivan Búnin, tradução de Boris Schnaiderman, editora 34, 2016

Literatura

André Nigri

Jornalista, crítico literário e leitor compulsivo