Duas novelas de Tolstói. Com a trilha sonora de duas sonatas de Beethoven, breves como os casamentos


Por André Nigri

 

 

 

 

 

Liev Tolstói. Trinta e três anos depois de A Felicidade Conjugal, ele escreveu A Sonata a Kreutzer, inspirado em Beethoven.

Ludwig Beethoven. Três anos separam o opus 27, Quasi una Fantasia, de A Sonata a Kreutzer.

As quatro obras foram realizadas no mesmo século. Do alemão, Quasi una Fantasia é de 1802, e a Sonata a Kreutzer, de 1805. Do russo, A Felicidade Conjugal é de 1858, e a novela homônima à peça musical, de1891.

Beethoven nasceu no século 18 e morreu no 19; Tolstói nasceu no século 19 e morreu no 20.

Três séculos. As duas sonatas de Beethoven têm cada uma três movimentos. Em A Felicidade Conjugal, Quasi una Fantasia é tocada três vezes por Mária, a protagonista e narradora do livro. O número mágico nas palavras dela: “Passaram-se três anos no decorrer dos quais as nossas relações permaneceram as mesmas, como que se detiveram, estratificaram-se, e não podiam já tornar-se melhores ou piores.”

Vamos à sinopse. Mária coloca-se a narrar a história de seu amor e o casamento com Serguei. Aos dezessete anos, ela acaba de tornar-se órfã de mãe – o pai morrera há anos – e vive na roça com uma irmã mais nova e uma agregada tipicamente russa, com quem troca confidências. Serguei tem trinta e seis anos, foi amigo do pai dela e tornou-se, com a morte da mãe, seu tutor. Ele chega à propriedade rural. Sabemos pouco a respeito de seu passado amoroso – Mária apenas revela ter tido ele relações um pouco tumultuadas –, e os dois se apaixonam. Tratando apenas com mujiques e piedosos beatos nas missas, Mária acredita ter encontrado o ideal do amor em Serguei. Este procura fugir ao amor, mas acaba sucumbindo. Ele foge porque considera a distância etária perigosa. Ela ainda não descobriu os prazeres mundanos. Ele já passou por todos e o que deseja é viver em paz no campo, longe da sociedade.

A novela de Tolstói é dividida em duas partes com quase o mesmo número de páginas, cerca de quarenta cada. A primeira transcorre toda no campo e conta o nascimento do amor entre Mária e Serguei, culminando no casamento dos dois. A trilha sonora dessa novela – Mária é esforçada ao piano e cede aos apelos de Serguei para tocar – é embalada pelo primeiro movimento da sonata de Beethoven. Esse primeiro movimento é um addagio, un lamento, o lento desenvolvimento de um tema, o amor na obra do russo. Nesta primeira parte, já se prefigura o sentimento ou emoção denominada pelo autor como “entusiasmo selvagem”. É preciso o leitor apelar à imaginação para entender tratar-se de uma excitação sexual – era uma época de pudores ou, como disse Milan Kundera, o sexo não passava do batente da porta. A expressão “entusiasmo selvagem” é repetida quantas vezes? A essa altura, não é difícil responder: três.

O primeiro capítulo da segunda parte dura uma estação – uma estação dura três meses, segundo os mais confiáveis estudiosos do tempo. O movimento inicial é un alegretto, rápido. Quando Berlioz ouvia esse segundo movimento, ele imaginava uma flor aberta sobre dois abismos. É tentador pensar nessa imagem: o abismo da idade, dos ardores, das expectativas, que separa a menina no limiar da vida adulta e o homem no limiar da velhice – não se esqueçam, do século 19! Naquele glorioso século envelhecia-se muito mais rápido.

Penso de já ter mostrado que o texto de Tolstói se desenvolve como uma partitura. Dois meses de pura paixão destilada, de incansáveis conversas entremeadas de risos, e Mária ama tudo, ama todo mundo, até sua severa e previsível sogra.

Bom, agora a paixão já ardeu o que tinha de arder e o tédio e a vacuidade insinuam-se no espírito de nossa honrada menina. No final do movimento, quer dizer, capítulo, o casal resolve deixar a roça e se mudar para Petersburgo. No segundo capítulo, Mária escreve: “O amor por meu marido tornou-se mais repousado.” E ouve de Serguei: “As relações falsas podem estragar as verdadeiras.” O que ele temia aconteceu, claro: a mulher roceira deslumbrou-se com a cidade. Para Tolstói, a cidade é o sinônimo da corrupção, da dissolução – uma ideia que vem de longe, pelo menos desde Santo Agostinho. O capítulo termina assim: eles estão prestes a voltar para o campo, mas aí surge um inesperado convite – em Tolstói, o acaso, um pequeno detalhe, muda tudo. Uma prima de Mária convida-os para um baile onde um certo príncipe deseja muito conhecê-la. Ir ao baile implica adiar a viagem. Ela quer ir. Ele diz: “E então? Tu fazes sacrifício e eu faço sacrifício também, o que pode haver de melhor? A luta da grandeza da alma. Para que então felicidade conjugal?” Ah, o título da novela surge uma única vez no tom de uma amarga zombaria, de um ácido sarcasmo!

“De súbito, seu rosto pareceu-me velho e desagradável”, sentiu Mária. É assim, subitamente, que acontece, quando menos se espera, o afeto se encerra. E a cortina desse segundo ato fecha-se com a irremediável sensação de que nada será como antes daqui para frente.

“A partir desse dia”, quem nos conta é Mária abrindo o terceiro capítulo, “transformaram-se completamente nossa vida e nossas relações”. Pelas minhas contas, neste momento, eles estão casados há quatorze meses. Não vou detalhar o frenesi e o tédio evocados por Tolstói, mas é fácil adivinhar: festas, bailes, os dois cada vez mais distantes, mundanismo, coqueteria etc. etc. etc. até o fecho.

Eis o ato final. Mária está no campo, de volta à roça, nasce-lhe o segundo filho. Serguei está ausente, em viagem, mas chega quando a esposa dedilha o primeiro movimento da sonata de Beethoven. Ele a faz lembrar daqueles primeiros momentos, os breves instantes do apaixonamento. Eles conversam, e sabem que é impossível repetir aqueles instantes, vividos há três anos. No entanto, continuam juntos, como duas flores murchas, e Tolstói termina tentando nos consolar e consolar a si mesmo com frases banais repassadas de resignação. Prestem atenção na pontuação, como compassos de uma triste melodia:

“A partir desse dia, terminou o meu romance com meu marido; o sentimento antigo tornou-se uma recordação querida, algo impossível de trazer de volta, e o novo sentimento de amor aos filhos e ao pai dos meus filhos deu início a uma nova vida, de uma felicidade completamente diversa, e que ainda não acabei de viver…”

Poucos anos depois de publicar A Felicidade Conjugal, Tolstói casa-se com Sófia Andréievna Bers, em 1862. Ela tem dezessete anos – uma coincidência no mínimo curiosa com a idade de sua resignada personagem Mária. Ele está com trinta e dois anos, apenas um pouco mais novo do que Serguei. Durante essa década e a seguinte, ele escreve e publica Guerra e Paz (1867) e Anna Kariênina (1875-1878), e torna-se o maior prosador da história da literatura russa nas palavras de Valdimir Nabokov.

Seu sossego parece ter terminado nos anos oitenta, durante os quais ele renuncia à sua arte e dedica-se à enfadonha tarefa de missionário e reformador social e espiritual. Essa vida é incompatível com o casamento, ele está seguro, e seus tormentos conjugais começam a se exasperar. Contra a vontade, mas impelido pelo inconformado artista que teima não se extinguir dentro dele, volta ao tema do amor conjugal em A Sonata a Kreutzer.

Os três movimentos dessa opus de Beethoven são: um addagio – presto; um andante con variazioni e um presto. No espírito do autor, só o primeiro age, por meio do seu personagem: o nobre proprietário de terras Pózdnichev; o alter ego dostoiévskiano de Tolstói.

Embora quem nos apresente o abjeto homicida seja um narrador anônimo – um casual passageiro de trem -, a história desse matrimônio é contada pela voz em primeira pessoa de Pózdnichev – é razoável supor um prudente afastamento do conde Tolstói diante de tão asquerosos acontecimentos.

A narração do uroxida irrompe no segundo capítulo em um andante e rapidamente torna-se um prestíssimo. Por isso, é impensável imaginar o livro dividido em partes; ele se estende por vinte e oito capítulos, com ligeiras pausas necessárias apenas para o leitor tomar um fôlego e voltar a mergulhar na anunciada tragédia.

Para Pózdnichev-Tolstói, não há distinção entre uma mulher da sociedade – uma mulher mundana – e uma prostituta. Sim, as opiniões são fortíssimas e é bastante razoável imaginar um número irrisório de leitoras para essa obra – na edição brasileira da editora 34, um obsequioso Boris Schnaiderman relativiza no posfácio as opiniões da novela de seu amado autor.

Somos levados a partir da juventude do personagem pelos caminhos da devassidão que se instala em seu espírito ainda na adolescência e que parece ter chegado ao termo quando ele se casa aos trinta anos (de novo estamos nos trinta, nessa tríade mágica) com uma moça bem mais nova – não somos informados da idade e tampouco sabemos seu nome -, uma bela mulher, filha de um sesmeiro arruinado. Sem perder tempo, logo na lua de mel, o desacordo conjugal entra em erupção. E rapidamente “o ânimo apaixonado esgotou-se com a satisfação da sensualidade e ficamos frente a frente com a relação verdadeira entre nós, isto é, dois egoístas absolutamente estranhos entre si, cada um desejando receber, através do outro, a maior soma possível de prazer”.

Pózdnichev é ciumento: “Em todo o tempo da minha vida conjugal, nunca deixei de experimentar os tormentos do ciúme.” E assim segue o narrador, empurrando o tédio, enumerando as contínuas irritações, essa incalculável quantidade de mal que um homem e uma mulher são capazes de causar um ao outro, como escreveu um formidável escritor argentino.

No meio do livro, capítulo dezessete, a coisa piora:

“Pois bem, assim vivemos. As relações tornaram-se mais inamistosas. E, finalmente, chegaram a tal ponto que não era mais uma divergência que procurava a hostilidade, mas esta é que suscitava divergência; dissesse ela o que dissesse, eu já estava de antemão em desacordo, e o mesmo se dava com ela em relação a mim.”

Agora atentem para o sublime número 3:

“Passados três anos, decidiu-se de parte a parte, como que espontaneamente, que éramos incapazes de compreender-nos, de concordar um com o outro. Desistimos de uma vez de tentar um acordo a fundo.”

Sucedem, monotonamente, as ondas de escaramuças domésticas deflagradas, como todo casal bem conhece, por ninharias:

“Surgiram choques e expressões de ódio por causa do café, da toalha de mesa, do fiacre, de uma jogada no uíste, tudo assuntos que não podiam ter nenhuma importância, quer para um quer para o outro.”

E agora o movimento fortíssimo, repetitivo, exasperador:

“Um período de amor, outro de raiva; um período enérgico de amor, um longo período de raiva; manifestação mais fraca de amor, um período curto de raiva.” Aqui estão as variações, as alternâncias do primeiro movimento da sonata de Beethoven.

O tempo passa. Ao completar trinta (opa!) anos, a senhora Pózdnichev começa a se dedicar ao piano; trata-se de um detalhe crucial para o desfecho trágico. Nesse momento aparece um homem, um homem atraente, filho da nobreza falida, violinista, mundano, residente um tempo em Paris. Um parêntese importante: A Sonata a Keutzer foi concebida para violino e piano.

“Pois bem, ele e sua música é que foram a causa de tudo.”

O jovem começa a ensaiar com ela e os dois, não só com a anuência mas com a promoção de Pózdnichev, vão tocar para a sociedade num domingo. Em cena, um diálogo elucida os humores desse adorável casal.

Ela: “Vejo como você está descontente pelo fato de eu querer tocar domingo.”

Ele: “Não estou nem um pouco descontente.”

Ela: “Pensa que não vejo?”

Ele: “Bem, dou-lhe os parabéns por isso. Quanto a mim, não vejo nada, a não ser que você comporta-se como uma mulher à toa.”

Ela: “Se você quer xingar como um cocheiro, eu vou embora.”

A apresentação musical da sonata transcorre nas páginas oitenta e dois e oitenta e três da edição traduzida por Boris Schnaiderman.

O primeiro movimento age maleficamente com o espírito do marido, para dizer o mínimo. O pianista americano Charles Rosen aludiu a esse trecho musical como desenfreado, desabrido (unbrided), na representação de uma emoção.

Em dois dias, Pózdnichev viajará a trabalho. Parte. Alguns dias depois, recebe uma carta da mulher e resolve, sem avisar, voltar mais cedo para casa. Durante a viagem, um pequeno contratempo – a roda da tarantás quebra no meio do caminho – atrasa a chegada em sete horas. Quando bate a campainha de casa e é atendido por um prestimoso mordomo de pijama, já passa da meia-noite. A primeira coisa que vê ao entrar é o casaco do músico peralvilho dependurado.

Aqui é preciso poupar o leitor dos detalhes do crime, do assassinato da mulher com um punhal afiado de Damasco. Estamos esgotados. Uma noite inteira se passou no vagão sentado ao lado desse Pózdnichev. Basta dizer que um estranho alívio e um imenso vazio se apossa de sua alma logo depois do ato ignominioso e durante os onze meses de prisão enquanto aguarda o julgamento.

Alguns anos depois da publicação dessa novela, Tolstói foge de casa e pega um trem com destino a um monastério, o único lugar onde imagina poder encontrar a paz. Como se sabe, ele nunca chegou lá. Aos oitenta anos, morreu na sala de espera de uma pequena estação ferroviária no meio do caminho. Deixou viúva e mais de uma dezena de filhos. A Sonata a Kreutzer, a homenagem ao músico cujo espírito lhe era congenial, foi seu réquiem.

P.S.: Uma singela nota de curiosidade. Tchekhov, o maior miniaturista da história da literatura e um devoto de Tolstói, que o admirava, escreveu uma novela sobre a paixão de um jovem por uma mulher que não o ama. Chama-se Três Anos e foi publicada em 1895. Mais ou menos três anos é o que dura o amor em outra novela do autor, O Duelo, e o mesmo tempo repete-se no conto O Professor de Letras.

SERVIÇO: A Felicidade Conjugal e A Sonata a Kreutzer estão em catálogo pela editora 34 com tradução de Boris Schnaiderman. A sonata Quasi una Fantasia, mais conhecida como Ao Luar, tem diversas interpretações no YouTube, com destaque para a de Wilhem Kempff; e a apresentação de A Sonata a Kreutzer no teatro do Champs Elysées é magnificamente executada por Anne Sophia Mutter no violino e Lambert Orkis ao piano.

Literatura

André Nigri

Jornalista, crítico literário e leitor compulsivo.